quinta-feira, julho 20, 2017

Síndrome Obsessesivo

Obsessão
Ter noção
Da limitação
Contenção
Observação
de perto
ao longe
me perco
me encontro
Ignorar a tentação

quarta-feira, maio 31, 2017

Correspondência

Olá,
Aquele filme.
Podia falar da excelente fotografia, da realização, do desempenho extraordinário dos actores (a Nicole Kidman está sublime), ou do enredo. Talvez do enredo. A forma como a Anna e todos nós somos enredados na crença de uma verdade em que queremos acreditar. O twist final é desconcertante. Depois, todo o filme feito de silêncios que dizem tanto. A música.
Logo após o miúdo desmaiar e na sala de espetáculos o plano da Nicole Kidman está divinal. Tanto que diz só com a expressão facial, com os olhos. A revelação. O nascimento da dúvida. O despertar. A dúvida como raiz da fé. O assombro.
Comecei a ver o filme à noite. Ia ver só o início, já era tarde, acabei por vê-lo todo. A noite segui-me pesada parecendo que tinha dormido uma vida inteira e acordado noutra.
Tenho um problema de fé. E no entanto uma necessidade insana de procurar por algo que dê um sentido, se não ao mundo, à minha presença nele. O que é também uma forma de dar sentido ao mundo. Porque tudo está em tudo. São raríssimas as coisas que não questiono. Felizes aqueles que acreditam…
Há coisas em que vou acreditando cada vez menos. Mas a experiência da vida também me tem vindo a fazer duvidar da minha própria dúvida.
Karma. Dharma. Atma.
Quando comecei a criar a minha própria concepção de vida, a reencarnação era algo do domínio de uma certa fantasia, um exotismo ilusório de querermos acreditar que nem tudo termina com a morte física do no nosso corpo. A reencarnação era tão fantasiosa como a ressurreição de Jesus, ou a aparição da virgem Maria aos pastorinhos. Um folclore criado como estratégia de marketing para garantir seguidores, ou na melhor das hipóteses uma inocente ilusão que nos conforte a existência terrena. E no entanto…
Quando era pequeno costumava fazer uma coisa: fixava-me ao espelho, concentrado apenas em mim próprio, no meu nome, na minha identidade. E de repente era como se nada disso fizesse sentido. Como se o meu reflexo fosse a imagem de um estranho, aquele espaço fosse outro lugar, como se o tempo parasse, ou melhor fosse todo o tempo naquele instante. E ai tive um primeiro vislumbre que somos mais do que o que nos anima a carne que habitamos. Mas ainda assim, queria negar que esta alma pudesse manter-se. Esta energia dissipar-se-ia assim que expirasse o último ar dos pulmões e mais nenhum entrasse. Como se para provar que algo existe tivesse que negar incessantemente o seu contrário. E quando finalmente sentes que não há mais nenhuma negação possível, encontras a verdade. Que é também ela própria ilusória, relativa, impermanente.
Hoje acredito que existem almas em níveis distintos de maturidade. Não tem a ver com inteligência, conhecimento adquirido, ambiente civilizacional em que cresceram ou qualquer outro aspeto. O que nos anima é diferente de pessoa para pessoa. Existem existências num estágio muito mais elevado, seja num pedinte, ou num erudito. E outras mais atrasadas. Existe algo que trazemos connosco que não foi apreendido. Já existia antes.
E existe algo não explicável, que não consigo identificar, não consigo racionalizar. Que chama. Que liga. Um laço indestrutível porque não se rege pelas leis da física, do espaço, do tempo.
O Sean não podia ser o Sean porque amava a Anna. Não sei se o Sean era o Sean. Ou a Anna era a Anna. Se calhar foram sem serem Sean nem Anna. Simplesmente foram, são e serão, independentemente do corpo e do tempo em que habitam. Ou então é apenas aquilo que escolho acreditar.
Sou sempre. 

quarta-feira, abril 19, 2017

Catarse

A agonia do corredor de hospital. Eu a não querer pensar em nada daquilo, não fora ser real.
Não estou doente, nem numa cama de enfermaria sequer. E no entanto sinto algo cá dentro como que partido. Como um relógio que dá sinal de meio dia quando o sol insiste em estar para além do horizonte.
A agonia do corredor de hospital. Alguém despido de si, vazio da sua dignidade, sem humanidade.
- Não há-de ser nada, vai passar
Não sou eu, que disparate. Eu estou bem. Foi algo que comi com a mania da comida saudável.
E tudo à volta tão irreal. As mesmas pessoas todos os dias. Do quarto para o corredor para a sala para o quarto.
O vulto sem nome no corredor, um lençol desmaiado enrugado pela dor. A náusea contagiada em cheiro de morte um corpo que se desfaz de uma alma que estica os braços para uma réstia de nada.
...

segunda-feira, janeiro 02, 2017

Passageiro secreto

Existe um passageiro profundo que habita em mim. Tão real como o actor que caminha na rua.
Inquieto, é na sua intuição que melhor compreendo o caminho, a paisagem, os outros. Outros retratos, outros espelhos.
O actor sabe disso. E por isso o tolera.
Por vezes tenta ignorá-lo quando teima em queimar o guião com o fogo da verdade.
O passageiro é filho da luz e da sombra. É aquele breve instante entre a noite e o dia, é o efémero perpetuo. É o que não tem nome, porque é tudo e não é nada, é o bem e o mal. É uno e é múltiplo.
Vagueia por trás da máscara da máscara da máscara da máscara.
É nesse fio de luz e sombra que desliza a ponta da caneta em que me revelo e liberto.

domingo, agosto 14, 2016

Retorno

Retorna
Sem retorno
A peça que falta
Sem plano, sem promessa
Retorna
Sem retorno
Apenas um amanhã feito hoje

terça-feira, julho 21, 2015

Auto-destruição

O som que sai da garganta depois do grito se esvair é o chamamento da morte
Quando já se desistiu de lutar, quando jaz a esperança,
Um útero estéril, vácuo de palavras
Quando a mudança ficou esquecida,
sob o sol de um deserto
onde o horizonte é apenas a incessante repetição
do agora
do vazio
da terra seca, árida
Quando o que resta é nada,

E o nada só se transforma quando se auto-destrói

(em transformação, nada é definitivo)

terça-feira, junho 02, 2015

quarta-feira, agosto 14, 2013

E no entanto permanece


A presença indelével
permanece, permanente
nas ruas, nas luzes, nas noites
na ausência, na marca desenhada na almofada
no contorno da sombra que fica
assombrada
na alma

Olho para o lado
outra vida afinal
em que continuamos a existir no que nunca foi
em que nunca aconteceram os erros que ficámos por cometer
em que vivemos o que nunca descobrimos saber

A presença ausente permanece
ruído branco
sempre
permanente

domingo, dezembro 30, 2012

Tempo

O tempo é o intervalo que está entre um instante e o próximo.
Sábios e magos, cientistas e estudiosos sabem (dizem saber) que o tempo é relativo. ora infinito, ora um suspiro; condensa em si o todo e o nada, e nada é quando ele nem sequer faz parte da equação.
E se a ausência deve ser feita de instantes infinitos que enchem a alma, deve também ser apenas o breve intervalo até ao instante do regresso.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Abre os olhos
O frio que estilhaça as mãos não sobrevive à madrugada
mais forte que o tempo que se acumula como um manto de folhas secas
mortas

Mais forte a madrugada que chama o Sol
Que traz consigo a alvorada de uma nova Primavera


domingo, agosto 14, 2011

E deitado na relva, ele chorou...
...E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
- Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... Cativa-me! Disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? Perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito... São precisos rituais.
- Que é um ritual? Perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. (...)
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ai! – Exclamou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar...
- A culpa é tua, disse o principezinho. Eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Pois quis.
- Mas agora vais-te pôr a chorar!
- Pois vou
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! Disse a raposa. Por causa da cor do trigo… Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo. (...)
- Adeus...
- Adeus, disse a raposa. Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
O essencial é invisível para os olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... Repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade, disse a raposa. Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...

Excerto de "O Principezinho", de Antoine de Saint-Exupéry

sexta-feira, janeiro 23, 2009

As palavras desta casa tem as tuas asas.
Diz-me que elas tem horizonte para voar
não quero mais esta noite longa que me consome 
Esta noite de lágrimas que me secam por dentro
diz-me que estás ai, que me ouves
que queres que eu te ouça


sexta-feira, novembro 28, 2008

Hoje aconteceu uma coisa extraordinária: Um pássaro na varanda. Um pardal, após uma noite de temporal numa manhã de um dia de Outono avançado. De dorso dourado , esplendoroso, debatia-se sem conseguir abrir as asas. Calcei uns sapatos, protegi-me com um roupão, e com um pano gasto acolhi o pássaro entre as minhas mãos. Tinha os olhos fechados, e estremecia. Há quanto tempo estaria ali? Teria sido a noite que findava que o tinha conduzido até à beira da minha janela? Estaria lá há mais tempo, sem que me tivesse apercebido?

Tentei aquece-lo dentro da palma das minhas mãos, acalmar a pulsão do seu corpo que gritava urgência. Podia sentir o seu coração que palpitava hesitante. Tão frágil. Destapei um pouco, e pude comprovar novamente o seu dorso orgulhoso, dourado (seria o sol espelhado em suas penas). Calmamente abriu os olhos, que sussurravam tranquilidade. Acenei ternura numa leve carícia sobre a sua cabeça. O seu olhar pacifico, lentamente aproximou-se

Houve um jovem Pardal que numa manhã de primavera pousou na minha varanda. Não conseguia voar e durante três dias alimentei-o com miolo de pão dissolvido em água. Houve um jovem Pardal que me encheu de vida e esperança as manhãs daquela Primavera. Houve um jovem pardal de dorso dourado.

quarta-feira, junho 25, 2008

Sonha com um príncipe encantado que cuidará dela. Mas nem sempre. No entanto ilude-se no sonho de um castelo que não é. Finge não ver, finge não saber, pois o sonho sobrepõe-se

Mexe no cabelo quando se apercebe que é observada. Poderá ele? As mãos constrangidas entrelaçadas sobre as pernas nervosas as mãos. Olhos que fogem porque desejam ser encontrados.

Antes ao espelho, ajeita o cabelo o corpo observa com os olhos que insistem em

Descobre no reflexo da janela uma figura que não a sua que desliza o cabelo em torno do pescoço e pousa-o sobre a respiração quase nua. E ela observa. Questiona.

Fecha os olhos.

terça-feira, junho 24, 2008

Primeiro fica tudo branco, um branco de vazio. Só depois vem a sombra enorme avassaladora que escurece os recantos da alma.

Esta é a descrição simples, genuína, mas de uma clarividência espantosa, do processo de luto, de quem não tem muitas palavras, mas tem o sentimento profundo das coisas essenciais da vida.

Dar sentido à vida. A cada segundo da nossa vida. Não desperdiçar a Dádiva maior que permite tudo o resto.

Pois a vida é poesia a cada instante, e nem sempre temos tempo para ler poesia.