domingo, agosto 14, 2011

E deitado na relva, ele chorou...
...E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
- Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... Cativa-me! Disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? Perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito... São precisos rituais.
- Que é um ritual? Perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. (...)
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ai! – Exclamou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar...
- A culpa é tua, disse o principezinho. Eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Pois quis.
- Mas agora vais-te pôr a chorar!
- Pois vou
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! Disse a raposa. Por causa da cor do trigo… Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo. (...)
- Adeus...
- Adeus, disse a raposa. Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
O essencial é invisível para os olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... Repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade, disse a raposa. Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...

Excerto de "O Principezinho", de Antoine de Saint-Exupéry

sexta-feira, janeiro 23, 2009

As palavras desta casa tem as tuas asas.
Diz-me que elas tem horizonte para voar
não quero mais esta noite longa que me consome 
Esta noite de lágrimas que me secam por dentro
diz-me que estás ai, que me ouves
que queres que eu te ouça


sexta-feira, novembro 28, 2008

Hoje aconteceu uma coisa extraordinária: Um pássaro na varanda. Um pardal, após uma noite de temporal numa manhã de um dia de Outono avançado. De dorso dourado , esplendoroso, debatia-se sem conseguir abrir as asas. Calcei uns sapatos, protegi-me com um roupão, e com um pano gasto acolhi o pássaro entre as minhas mãos. Tinha os olhos fechados, e estremecia. Há quanto tempo estaria ali? Teria sido a noite que findava que o tinha conduzido até à beira da minha janela? Estaria lá há mais tempo, sem que me tivesse apercebido?

Tentei aquece-lo dentro da palma das minhas mãos, acalmar a pulsão do seu corpo que gritava urgência. Podia sentir o seu coração que palpitava hesitante. Tão frágil. Destapei um pouco, e pude comprovar novamente o seu dorso orgulhoso, dourado (seria o sol espelhado em suas penas). Calmamente abriu os olhos, que sussurravam tranquilidade. Acenei ternura numa leve carícia sobre a sua cabeça. O seu olhar pacifico, lentamente aproximou-se

Houve um jovem Pardal que numa manhã de primavera pousou na minha varanda. Não conseguia voar e durante três dias alimentei-o com miolo de pão dissolvido em água. Houve um jovem Pardal que me encheu de vida e esperança as manhãs daquela Primavera. Houve um jovem pardal de dorso dourado.

quarta-feira, junho 25, 2008

Sonha com um príncipe encantado que cuidará dela. Mas nem sempre. No entanto ilude-se no sonho de um castelo que não é. Finge não ver, finge não saber, pois o sonho sobrepõe-se

Mexe no cabelo quando se apercebe que é observada. Poderá ele? As mãos constrangidas entrelaçadas sobre as pernas nervosas as mãos. Olhos que fogem porque desejam ser encontrados.

Antes ao espelho, ajeita o cabelo o corpo observa com os olhos que insistem em

Descobre no reflexo da janela uma figura que não a sua que desliza o cabelo em torno do pescoço e pousa-o sobre a respiração quase nua. E ela observa. Questiona.

Fecha os olhos.

terça-feira, junho 24, 2008

Primeiro fica tudo branco, um branco de vazio. Só depois vem a sombra enorme avassaladora que escurece os recantos da alma.

Esta é a descrição simples, genuína, mas de uma clarividência espantosa, do processo de luto, de quem não tem muitas palavras, mas tem o sentimento profundo das coisas essenciais da vida.

Dar sentido à vida. A cada segundo da nossa vida. Não desperdiçar a Dádiva maior que permite tudo o resto.

Pois a vida é poesia a cada instante, e nem sempre temos tempo para ler poesia.

sexta-feira, abril 18, 2008

Escrever implica fechar à porta ao resto do mundo. Conseguir encontra-me comigo próprio, a sós, comigo em toda a sua plenitude de virtudes e defeitos, sem redutores de dor, sem niveladores de emoções, sem ponto médio, apenas a absoluta irregularidade do ser, de ser Vivo.

E cada vez é mais difícil largar o Porto de refugio. Não te esqueças pois que a coragem só mora à porta do medo. E a planície da savana só serve ao leão que dorme.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Corre até casa para preparar o jantar que arrefece sempre antes de tempo, por mais cedo que chegue arrefece sempre espreita pelas persianas gastas da marquise se chega, já não espera, espreita pela novela que chega sempre à hora certa, nem chega a arrefecer o jantar não espera

O filho mais velho não a conhece. Entra, come calado, deita-se fechado sobre o escuro dos lençóis pesados de ar bafiento.

terça-feira, novembro 27, 2007

Delirios (ensaio do regresso)

Conheci a Anussa na terapia de grupo para carnívoros inveterados. Estava naquela fase em que queria tornar-me vegetariano à força, mas não conseguia aguentar 2 dias sem ceder à tentação de um entrecosto grelhado, ou de um frango de churrasco. Houve uma sessão em que fui expulso da sala porque vinha a cheirar a “Zé do Frango Quente”. Eu tentei explicar que tinha sido devido a um contratempo no metro apinhado em hora de ponta que uma senhora ciosa dos seus 150 quilos e com um saco de 2 frangos cheios de molho picante, tinha encostado os sacos sobre o meu casaco, e dai aquele cheiro. Hoje em dia as pessoas são cépticas em relação a tudo. Tudo é anormalidade, e vicio.

Enfim, mas as sessões resultaram pois ao fim de 8 meses, 3 dias e 18 horas estava sem comer carne. Eu e a Anussa. Tudo começou quando após uma dessas sessões, eu e Anussa fomos comer um snack de pão de sésamo. Ela contou-me da sua vida, das suas paixões, dos pecados da carne. Trocámos ideias e encontrámos pontos comuns: os filmes favoritos “A festa de Babette”, “ Em carne Viva”, os grupos musicais que partilhávamos: “Meat Loaf”. Conversamos sobre a vida e a morte e o porquê de querermos fugir de toda a carne, de todo o sangue vivo. Não acabámos o pão de sésamo. Ela pegou em mim, e partimos para o seu refúgio secreto, onde nos entregámos à luxúria da carne em todo o seu esplendor. Ardia o ar tanto era o fogo que contaminava a carne suada. O modo como nos entregámos tão livremente, de forma tão espontânea e despreocupada, uniu-nos para sempre.

Passados 8 meses e 3 dias afastados da carne, mais próximos da virtude, da saúde, da salvação, continuamos a encontrarmo-nos e falamos de novas receitas de Tofu, da nova marca de arroz integral, de uma nova variedade de alface frisada.

Mas quando a olho nos olhos, vejo ainda o sangue a pulsar, em carne viva, e sei que estarei para sempre ligado a ela.

sexta-feira, junho 16, 2006

Com o primeiro fio de luz disvirginando o dia
assim alvoras as pétalas fechadas da flor
São lábios beijando o sol que surgia
Engravidando a manhã com seu rubor

Como se o mundo inteiro nascesse só para nós
E o que nos rodeia s desenhado apenas para ser o cenário
Das mãos que hesitam, dedos que insinuam

tic tac toe

(com dedos que abrem, mãos que se unem)
(
a luz original, antes de tudo, aquela que revela
a novidade a surpresa o desejo do desconhecido
o fulgor de tudo ser novo)
Mas a alegria esconde uma gota de orvalho surpreendida

[em construção; Ainda em Luz Construo-te]
Renovação

A tardinha chegava junto de nós dourando-te a pele. E quando pousavas os frutos que colhemos, esvoaçava o aroma a laranja nas ondas do teu cabelo. Hesitava, evitava o seu apelo, fugia o olhar caindo na armadilha das minhas mãos roçarem as tuas. Dedos longos, esguios que desenhavam sonhos quentes no ar que respirávamos. E o que dizíamos já não morava nas palavras que deixavam a nossa boca, e disfarçávamos a cumplicidade apenas com um sorriso infantil.
Podíamos afinal, tu e eu
O calor de Junho, o rumor do silêncio visitado pelas cigarras, a ausência do mundo, feito nosso mundo

Já dizias que me amavas, mesmo sem palavras, que é a forma mais pura de desvendar a essência do amor. Eu sabia-o, sentia-o. Ainda assim pressentia as palavras a palpitar dentro de ti, timidamente querendo despertar, primeiro a lápis, depois a fogo gravadas em mim.

Here Comes the Sun...

Little darling, it's been a long cold lonely winter

Little darling, it feels like years since it's been here

Here comes the sun,

Here comes the sun, and I say

It's all right

quarta-feira, junho 14, 2006

Epitáfio em 3 fases (parte 3)

Já fechei a porta da casa abandonada
Nas paredes imagens desvanecem em sépia
O silêncio cortado pelo ranger da escada
E das portadas chora um fio de luz réstia

Já deixei a estrada que julguei nossa, perdida
O destino infinito foi abatido por um sinal:
Sem futuro, sem saída, em frente terra batida
E do espelho, cada vez mais longe a ferida

Já partiu o barco numa noite negra
Desfazendo em curva a saudade,
Longe a luz do farol pulsa lenta,
quase morta, quase cega

Já não existe dor, de ti nem sequer rumor
Apenas um sulco gravado na alma,
E o pó do tempo que o preenche em seu redor

Adeus

Da noite se faz dia, é preciso morrer para
R E N A S C E R

sexta-feira, junho 09, 2006

Epitáfio (parte 2)

SE EU NÃO TE AMAR MAIS

Se eu não te amar mais me
Caia o mar nos ombros
Me caia
Este silêncio pelos ossos dentro
Me cegue os olhos esta sombra
Me cerre
Esta noite num escuro mais profundo
Do que a chuva de ti de mãos tão leves
A figueira do meu sangue se emudeça
De pássaros à espera dos teus passos
De outra voz por sobre a minha
Morta
E as ruas do teu corpo eu desaprenda
Como desaprendi os dedos que me tocam
E se eu não te amar mais me caia a casa
De costa no teu peito como o vento.

(ANTONIO LOBO ANTUNES)

terça-feira, junho 06, 2006

Epitáfio (parte 1)

Estava decidido em procurar-te. Precisava ver-te. Tantas palavras por dizer, tanto ruido disfarçado de silêncio. A manhã não tinha sido fácil, mas precisava ver-te. Não almoçou, mas foi ao seu encontro.
- Passei por aqui perto, e resolvi visitar-te (como quem vagueia sem rumo e toma um caminho qualquer; olha não tinha mais nada para fazer, e lembrei-me de te dizer olá)

O essencial continuava ancorado no mar que nos separava, apenas banalidades sobressaiam

- Como tens passado? O que tens feito? (Em que ponto ficámos, onde nos perdemos)

Caminhava feliz por estar a teu lado, mas faltava o principal. Pressentia uma marcha fúnebre. A derradeira caminhada. E apesar

- sinto a tua falta (quero estar contigo, chama-me, pede-me, exige-me)

Estava preparado para tudo, para responder a tudo, mas evitava as questões em mim próprio. Temia que não viesses, e assim não te procurei. Esperei. Esperavas. Não falei. Não disseste.E o tempo sepultou as palavras que aprisionavam o sentimento.

- Liga-me, para combinar-nos algo (um livro, o fim do mundo, um filho, um sonho, 5 minutos de tudo)

- Logo se vê (não a veria mais)

sexta-feira, junho 02, 2006

Os beijos já não procuravam os seus lábios, fugazes (frios e distantes daqueles quentes dias da primavera), cruzavam-se como estranhos num cinzento dia de Inverno. Os lábios sepultavam o silêncio de tudo aquilo que já não podia ser dito. O corpo leito cansado de um percurso que se repete exaustivamente, sem pensar, sem lembrar.

Do Sol e da Lua, somos todos filhos

Tudo era novo, como se o universo começasse na luz que nascia do encontro do seu olhar. E os instantes eternidade, de palavras banais feitas poemas, de mãos que estremecem ao pressentir a proximidade das outras. Tudo é perfume, esplendor, procura e desejo de êxtase. Quando pela primeira vez os lábios se tocam, como se nada tivesse existido antes daquele momento, o calor único, o toque macio selando o mistério, revelando a doce ternura do Amor.

quarta-feira, maio 24, 2006

A noite pesada avoluma a solidão em frente à televisão que preenche um silêncio oco. Já não espera nem o som do telefone, nem da porta. Nem o vento a visita para libertar o ar cheio de mofo. E no sofá decadente masturba ilusões e sonhos perdidos, amputada que está de sentir o ardor da vida.

terça-feira, maio 16, 2006

Da janela das águas furtadas avistava-se a cidade grávida de solidão. Na minúscula mesa encravada na sala, um pano de renda desconcertante derramava uma brancura gasta. Uma caixa de porcelana da feira do relógio, uma fotografia antiga. Alguns livros comprados a lote encadernam uma pequena estante que se encavalita junto à janela. Não se apercebe da sombra que habita, do equivoco de uma existência que apenas acumula a poeira do tempo que passa.